Governador preferiu ficar no Palácio dos Leões para formar trincheira pela eleição do sobrinho
O xadrez político do Maranhão vive um daqueles momentos em que a aparência institucional pouco revela do que realmente se move nos bastidores. A decisão do governador Carlos Brandão de permanecer no cargo — abrindo mão de disputar o Senado — não é um gesto de recuo, mas de cálculo. E dos mais frios.
Ao evitar a desincompatibilização, Brandão resolve dois problemas imediatos. Primeiro, impede que o vice-governador Felipe Camarão assuma o comando do estado — algo que, nas circunstâncias atuais, significaria entregar a máquina administrativa a um grupo político adversário, ainda que formalmente aliado até há pouco tempo. Segundo, mantém sob seu controle direto a engrenagem estatal, ativo decisivo para impulsionar a candidatura do sobrinho, Orleans Brandão, cuja viabilidade eleitoral depende menos de carisma próprio e mais da musculatura política e financeira herdada.

Esse movimento, no entanto, escancara uma ruptura que já não pode mais ser disfarçada: o rompimento com o grupo do ministro Flávio Dino. O acordo original — quase um contrato político — previa que Brandão, eleito vice na chapa de Dino, assumiria o governo e, posteriormente, passaria o bastão a Camarão, permitindo a continuidade do grupo no poder sob nova liderança. Não apenas isso não ocorreu, como o atual governador passou a operar ativamente para esvaziar o espaço político do próprio vice, inclusive com tentativas de redesenho institucional que beiram o casuísmo.
A consequência é um cenário de guerra fria, com episódios cada vez menos discretos. De um lado, Brandão consolida sua base com apoio de prefeitos, deputados e setores da elite política local, valendo-se do controle da máquina e de uma mídia regional amplamente alinhada. De outro, o grupo de Dino — ainda robusto — mantém influência significativa, especialmente por meio de quadros como Camarão e parlamentares leais, além da projeção nacional que o ex-governador conquistou ao chegar ao Supremo Tribunal Federal.
É nesse ponto que a narrativa ganha contornos mais delicados — e perigosos. A insistência de setores ligados ao Palácio dos Leões em sugerir que Flávio Dino atuaria nos bastidores do Supremo Tribunal Federal para influenciar processos envolvendo o governo estadual não apenas tensiona a relação institucional, como flerta com uma retórica que, em outros contextos, já se mostrou corrosiva para a democracia: a deslegitimação preventiva de decisões judiciais.
O pano de fundo dessa disputa é ainda mais sensível diante da existência de um processo sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, relacionado ao episódio do assassinato ocorrido no edifício Tech Office, em março de 2022, em São Luís. Ainda que não haja, até o momento, desfecho que atinja diretamente o governador, a simples tramitação do caso em Brasília adiciona um elemento de imprevisibilidade ao tabuleiro — e serve de combustível para versões, insinuações e disputas narrativas.
O que se observa, portanto, é uma sobreposição de três camadas de conflito:
- A disputa pelo controle da sucessão estadual, em que Brandão aposta todas as fichas na eleição de Orleans Brandão como forma de perpetuar seu grupo no poder.
- O racha com o dinismo, que transforma antigos aliados em adversários com capacidade real de enfrentamento político e institucional.
- A judicialização latente, que pode, a depender dos desdobramentos no STF, alterar completamente o equilíbrio de forças.
Para o eleitor maranhense, o cenário que se desenha está longe de ser trivial. Não se trata apenas de escolher entre nomes, mas de compreender que há um embate estrutural em curso: de um lado, a lógica tradicional de manutenção de poder via controle da máquina; de outro, um grupo que, embora também forjado nas engrenagens do sistema, busca se reposicionar como alternativa após a ruptura.
O desfecho é, neste momento, aberto — mas alguns caminhos são plausíveis.
Se Brandão conseguir manter coesa sua base e blindar-se de eventuais desgastes judiciais, tende a chegar competitivo ao processo eleitoral, com vantagem operacional significativa. Por outro lado, qualquer fissura — seja política, seja jurídica — pode abrir espaço para uma recomposição do grupo de Dino, especialmente se conseguir capitalizar o discurso de “traição” e se apresentar como vítima de um projeto de poder personalista.
Aqui, pode-se adicionar mais um ingrediente: a possibilidade real de que todos esses oposicionistas, ou ‘dinistas’, encontrem abrigo no grupo do ex-prefeito de São Luís, Eduardo Braide, atual líder nas pesquisas eleitorais para governador e que deixou a prefeitura no apagar das luzes da desincompatibilização, para também ser candidato.
No limite, o Maranhão assiste à reedição de um velho enredo da política brasileira: alianças pragmáticas que se desfazem ao primeiro sinal de disputa real por poder, revelando que, por trás dos discursos de continuidade e projeto coletivo, o que prevalece é a lógica crua da sobrevivência política.
E, como quase sempre, quem paga o preço dessa instabilidade não são os protagonistas do embate — mas a população, que segue à margem de decisões tomadas em arenas onde o interesse público costuma ser apenas argumento, nunca prioridade.
José Machado, jornalista
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Uma resposta
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