Mensagens revelam que, duas semanas antes da prisão de Daniel Vorcaro, o senador ocupava um imóvel do banqueiro
Segundo a Revista Piauí, a relação entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI) – o “vice dos sonhos” de Flávio Bolsonaro – e o banqueiro Daniel Vorcaro não se limitava a jantares, viagens e conversas amistosas: conforme a a Polícia federal, envolvia mesadas, sociedade oculta, dinheiro vivo, cartões de crédito, restaurantes, hotéis, jatinhos, emenda parlamentar e férias na neve, mas também um capítulo imobiliário: “Fruição de imóvel de propriedade de Daniel Vorcaro como se fosse do próprio parlamentar”, segundo os investigadores.
Na Piauí deste mês, Breno Pires mostra do que se tratava: o senador vivia em um apartamento emprestado por Vorcaro em São Paulo, em novembro de 2025. A reportagem O amigo do crime revela um diálogo em que Ciro pediu ao banqueiro para ficar mais tempo em seu apartamento. São mensagens de áudio e de texto trocadas no dia 2 de novembro de 2025, quinze dias antes de Vorcaro ser preso enquanto tentava embarcar para Dubai. Na época, depois de romper com a então companheira Flávia Rosalen, Ciro a deixou morando em seu apartamento no Hotel Fasano, em São Paulo, e passou a ocupar um imóvel de Vorcaro.
Em mensagem de áudio enviada ao banqueiro, o senador disse que precisaria ficar ainda mais três ou quatro meses no apartamento, até que a ex-namorada desocupasse o apartamento no Fasano. Ciro explicou que havia comprado um imóvel para Flávia, mas que ainda estava em obras.
“Para te dar uma explicação”, escreveu o senador a Vorcaro. “Eu comprei um apartamento agora para Flávia […] para [eu] poder voltar e devolver o [seu] apartamento. Só que ainda tem que botar piso, essas coisas, vai demorar uns três meses. Mas, se tu precisar aqui antes, me avisa que eu dou um jeito. Não quero abusar da tua boa vontade, não. Tá bom, meu irmão?”
Vorcaro pareceu não entender de imediato: “Vc tá falando do apto em SP em que já está? Ou precisa de outro?” O senador esclareceu: “É o que eu tô.” Em seguida, voltou a explicar o arranjo feito com a ex-namorada e a necessidade de obras no imóvel. “Acho que demora uns três, quatro meses. Aí estou preocupado de você estar precisando”, disse Ciro. “Relaxa com isso”, escreveu Vorcaro. O senador respondeu enviando um emoji de coração e comentando: “Me avisa que eu dou um jeito se tu precisar. Abração, meu irmão. Saudade grande de você.” O banqueiro encerrou a conversa na mesma chave: “Irmãozão, já te falei desse apto. Zero estresse. Vamos conversar depois.”
A dependência de Ciro em relação a Vorcaro guardava uma simetria incômoda com a de Flávio Bolsonaro. Enquanto o ex-ministro da Casa Civil vivia de favores pessoais do banqueiro – apartamento, viagens, restaurantes, cartões de crédito e férias na neve –, o filho do ex-presidente recorria a Vorcaro para tirar do papel um projeto que misturava família e política: a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Segundo reportagem do Intercept Brasil, Flávio cobrou do banqueiro os 24 milhões de dólares prometidos para, alegadamente, financiar o filme. Em mensagem enviada um dia antes da primeira prisão de Vorcaro, chamou-o de “irmão” e escreveu: “Estou e estarei contigo sempre.”
No caso de Ciro, o favor era de outra natureza, mas não menos revelador. E não era o único. A piauí apurou que, em janeiro de 2025, Ciro e Flávia passaram treze dias na luxuosa estação de esqui dos Alpes Franceses com despesas bancadas por Vorcaro, segundo a PF. A viagem custou quase 2 milhões de reais. Numa das fotos anexadas ao relatório da investigação, o banqueiro aparece abraçado ao senador, ambos de óculos escuros e roupas de neve, com as montanhas ao fundo.
Para o ministro André Mendonça, do STF, a relação entre Ciro e Vorcaro formava um “arranjo funcional e instrumental orientado por benefício mútuo, extrapolando relações de mera amizade”.







