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São Luís (MA), 28 de novembro de 2020

Distúrbio alimentar: como o isolamento pode afetar sua relação com a comida

Estresse e ansiedade podem ser fatores agravantes e até mesmo desencadeantes de transtornos alimentares durante isolamento social
Como o isolamento pode afetar nossa relação com a comida (Foto: reprodução Getty Images)
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As mudanças no mundo têm impacto direto sobre nosso comportamento e, por conta desse período de isolamento e readaptação da rotina, é comum que tenhamos sentimentos alterados. Estresse, ansiedade, medo, angústia e solidão são algumas das sensações envolvidas no turbilhão emocional causado pela pandemia do coronavírus. Junto aos crescentes casos de contágio e as reforçadas medidas de prevenção, nossa saúde mental e emocional também estão em pauta. 

De acordo com uma publicação de abril feita pelo jornal britânico The Lancet, cientistas do King’s College de Londres fizeram uma revisão sobre o impacto psicológico da quarentena decorrente do coronavírus. Após analisarem 24 estudos, os pesquisadores concluíram que a maioria revela repercussões negativas como sintomas de estresse pós-traumático, raiva e confusão. 

Mas, como a pandemia e seus desdobramentos afetam os distúrbios alimentares e suas manifestações? Segundo o psiquiatra Eduardo Aliende Perin, de São Paulo, um estudo recente do Hospital Universitário de Barcelona, na Espanha, mostrou que 38% dos pacientes relataram piora dos seus sintomas alimentares durante o confinamento e 56% relataram aumento da ansiedade e estresse, elevando o risco de “beliscar” alimentos o dia todo. 

O período de pandemia é uma situação atípica e inusitada, que impacta diretamente as reações emocionais das pessoas. “Elas estão mais ansiosas, preocupadas e com medo e por não haver perspectivas de quando essa situação irá acabar. Todos estão mais suscetíveis a apresentar distúrbios psicológicos e também psiquiátricos”, reforça a nutróloga Dra. Marcella Garcez. Além disso, Muitas pessoas que estão em isolamento podem passar a ter uma autoimagem prejudicada, um importante fator de risco para transtornos alimentares e, assim, passam a desenvolver transtorno alimentar. De outra maneira, lidar com a solidão do confinamento pode fazer com que o indivíduo, que já tinha um diagnóstico, desenvolver uma exacerbação do quadro.

A internet pode ser um fator importante nesse sentido. É o que enfatiza o psiquiatra: “Problemas de saúde, ganho de peso e sedentarismo servem como fatores precipitadores para o desenvolvimento de distúrbio alimentar em indivíduos vulneráveis na quarentena. A maior exposição à mídia e a corpos esbeltos e magros também pode ser muito deletéria”.

Geralmente os portadores de transtornos alimentares já apresentam sinais leves dos distúrbios ao longo dos anos. “Porém, em uma situação como essa de maior estresse emocional pode ser o fator agravante e até mesmo desencadeante de sintomas mais significativos”, explica Marcella.

Primeiros sinais de distúrbio alimentar

Os mais frequentes – bulimia nervosa e anorexia nervosa – geralmente começam acompanhados de ansiedade e obsessão por manter-se magro, aliada à presença de baixa auto-estima, que são seguidas de alterações de hábitos alimentares.

No caso da bulimia nervosa, a pessoa tem episódios de compulsões alimentares, seguidas de métodos compensatórios inadequados como vômitos induzidos, uso de laxantes ou diuréticos e prática de exercícios em excesso, para evitar o ganho de peso.

Para Dra. Marcella, o transtorno mais comum durante o isolamento é a compulsão alimentar periódica, que pode evoluir para bulimia nervosa é a principal causa é a ansiedade do momento atual. “Quem tem compulsão alimentar periódica apresentam episódios de compulsão alimentar, porém diferentemente da bulimia, não utilizam métodos purgativos para eliminar os alimentos ingeridos, nem têm grande preocupação com o peso e a forma corporal”, explica. Nesse caso, essas pessoas tendem a perder o controle durante os frequentes episódios de compulsão e só conseguem parar de comer quando se sentem fisicamente desconfortáveis.

Relatos de quem sofreu distúrbio alimentar

Marie Claire conversou com as influenciadores digitais Dora Figueiredo e Mirian Bottanque já tiveram transtornos alimentares e hoje elas contam suas histórias nas redes sociais. Mais do que isso, são exemplos para muitas mulheres que também enfrentam o problema, trazendo à tona reflexões importantíssimas sobre corpo feminino como objeto, julgamentos, machismo e outros temas relevantes que podem fazer você refletir durante o período de isolamento.

Dora Figueiredo, de 26 anos, conta que começou a notar algumas alterações no comportamento a partir dos 12 anos, junto com as mudanças físicas, que para ela eram ‘defeitos’: “Nessa idade, eu já me sentia incomodada com meu corpo, algo que uma criança não deveria sentir, mas o fato de a mulher ser tão sexualizada desde cedo fazia com que eu achasse que precisava ter um corpo ‘perfeito’ para ser bem sucedida. Inclusive, eu já tinha certeza que, se aos 14 eu não tivesse os seios do jeito que eu queria, iria colocar implantes de silicone”.

Aos 14 anos, Dora, de fato, teve seus primeiros sintomas ligados ao distúrbio alimentar. Um dos fatores que desencadeou o problema foi quando começou a usar a internet e descobriu perfis em redes sociais de meninas muito magras. A partir daí, essas imagens passaram a ser sua inspiração de “corpo ideal”. Ela relata que ficava até três dias sem comer e fazia muito exercício físico porque achava que, assim, seria desejável para os homens.

Nesse processo, Dora ainda passou por um relacionamento abusivo, porque o namorado controlava sua quantidade de comida no prato. “A partir do momento que ele saiu da minha vida, eu estava livre para fazer o que quisesse, por isso acabei comendo mais e engordando, mas também me amava mais e não importava muito em como ficaria meu corpo, porque eu já não tinha que ser perfeita para o meu namorado”. 

Depois do episódio, ela fez acompanhamento com psicóloga, psiquiatra e nutricionista e hoje está curada da compulsão alimentar mesmo sabendo que não está 100% livre do sentimento de pressão estética. “Há recaídas, claro, mas nada parecido com o que era antes, que eu achava que eu só seria feliz se entrasse numa calça tamanho 36”.

Dora Figueiredo no Instagram (Foto: reprodução Instagram @dorafigueiredo)

O ganho de peso é uma das queixas de algumas mulheres que estão em isolamento. Dora também tem percebido esse receio e considera totalmente natural, já que ficamos mais em casa, com mais tempo de olhar as redes sociais, nos olharmos no espelho e isso pode afetar, sim, a autoestima. Por outro lado, ela acredita que há muitas coisas mais importantes do que a mudança de peso. “Espero que as pessoas entendam que o peso delas não é nem de perto o fato mais relevante que está acontecendo no mundo agora. É normal você engordar na quarentena. Se olhe com um olhar mais carinhoso”, completa.

Já para Mirian Bottan, os questionamentos sobre sua imagem começaram bem mais cedo, pois dos 5 aos 12 anos, já participava de concursos de beleza, além de fazer cursos de modelo fotográfica e passarela. A experiência teve um impacto muito grande na sua vida, já que o ambiente era propício para avaliações sobre seu corpo. “Aos 12 anos eu já tinha uma fixação com esse padrão estético e comecei a fazer dieta por conta própria, mesmo pesando 42 quilos. Tínhamos uma balança em casa e eu me pesava obsessivamente, várias vezes por dia. Meu objetivo era chegar aos 35 quilos”.

Para manter-se no padrão, Mirian dizia que não sentia fome e até escondia a comida embaixo da salada para jogar fora. Mas o comportamento começou a ter um efeito contrário, gerando episódios de compulsão alimentar, em que ela perdia o controle e comia muito, misturando doce e salgado e comida fria direto da panela. “Aos 13 anos, comecei a vomitar depois de comer e a bulimia durou até os meus 29 anos”.

Miriam Bottan no Instagram (Foto: reprodução Instagram (@mbottan))

A influenciadora não procurou ajuda médica porque não queria parar, mas aos 15 anos, seus pais descobriram e buscaram ajuda profissional, ainda contra sua vontade. Ela conta que a ajuda só funcionou de fato quando se cansou e buscou por conta própria, aos 26 anos de idade. “O primeiro passo para vencer um transtorno como esse é admitir o problema pra nós mesmas. É preciso querer e se comprometer com o processo”.

Hoje o quadro está controlado e Mirian não tem mais episódios de compulsão e purgação e há mais de três anos, se alimenta bem e sem obsessão. “Entre 2014 e 2016, com a ajuda de especialistas, decidi voltar a comer alimentos que não me permitia e, com o tempo, os episódios de exagero e descontrole foram diminuindo. Foi nessa época que comecei a falar disso nas redes sociais, como um registro da mudança de comportamento”. 

Mirian confessa que ainda tem insatisfações e sabe que isso não desaparece completamente porque vivemos numa cultura que ainda idolatra e favorece certos padrões estéticos. O que mudou para ela é que agora não se permite prejudicar ou se colocar em risco em nome de alcançar esse padrão. “Temos que lembrar que criar uma relação de afeto com a comida é normal e saudável. O problema é quando a única forma de lidar com sentimentos é comendo. Sempre que percebermos que há exagero ou descontrole, é importante buscar ajuda profissional para lidar com os sentimentos que estão causando aquilo, senão corremos o risco de ficar pulando de um excesso para o outro sem nunca resolver o real problema”, ressalta.

Como estamos vivendo um momento emocionalmente difícil, é essencial não tentar fazer restrições muito rígidas. A influenciadora reconhece que isso pode facilitar o desenvolvimento da compulsão alimentar. “O que eu faço é tentar ter refeições balanceadas, com legumes e frutas, mas também algo que gosto, mais calórico, um doce, por exemplo. Mesmo não sendo tão nutritivo quanto uma salada, essas comidas me trazem conforto e mantém o descontrole longe”.

Tratamento para o distúrbio alimentar

Por serem quadros de extrema complexidade, os transtornos alimentares muitas vezes exigem um tratamento realizado por equipe multiprofissional que compreendem além do médico nutrólogo ou psiquiatra ou clínico, psicólogo, nutricionista e educador físico.

Lembrando que se a pessoa identificar que não consegue controlar-se e que, se os episódios estão muito frequentes, você deve procurar atendimento, mesmo que seja à distância. “O tratamento online via videoconferência para pacientes com transtornos alimentares, é uma opção com limitações, mas que em geral traz resultados positivos”, aconselha Dr. Eduardo.

Os especialistas envolvidos traçam estratégias para o tratamento do transtorno, que poderá compreender as orientações alimentares, a prescrição de suplementos alimentares e medicamentos necessários. Já os outros profissionais acompanham com seguimento.

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