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São Luís (MA), 7 de agosto de 2026

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Temor? Brandão fala em ‘ética’ ao criticar Dino por relatar processos de maranhenses

O governador Carlos Brandão afirmou em entrevista que não acha justo um juiz [Flávio Dino, ministro do STF] julgar um adversário político. Para ele, isso é uma “questão de ética” e que, por isso, Dino não deveria julgar processos que envolvam políticos maranhenses. O ministro Flávio Dino ainda não se manifestou sobre essas declarações, que talvez expressem o temor do governador com o que poderá vir de Brasília e desabar sobre sua cabeça. Algo que possa resumir uma frase muito em voga: a batata dele pode estar assando...

O governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), criticou a atuação do ministro do STF Flávio Dino em processos que envolvem políticos maranhenses. Ele disse que Dino deveria se declarar impedido de relatar ações ligadas ao estado.

Em entrevista ao programa VEJA em Foco, Brandão afirmou que não acha justo um juiz julgar um adversário político. Ele destacou que o Maranhão passa por um ambiente com forte judicialização.

Segundo o governador, parte dos processos envolvendo parlamentares locais tem como relator o ministro do Supremo. Brandão falou em “questão de ética” e disse que, por isso, Dino não deveria julgar esses processos.

Brandão comparou a postura de Dino com a do ministro Kássio Nunes Marques. Ele disse que Kássio Nunes Marques se declara impedido de analisar ações relacionadas ao Piauí por ter vínculos políticos no estado.

O governador afirmou que, no caso do Maranhão, essa situação não acontece. Ele também citou que Dino atua em processos que envolvem adversários políticos no estado.

O ministro Flávio Dino não se manifestou sobre essas declarações, que talvez expressem o temor do governador com o que pode vir de Brasília e desabar sobre sua cabeça. Algo que possa resumir uma frase muito em voga: a batata pode estar assando…

Analisando as “lições” de Brandão

As declarações do governador Carlos Brandão (MDB) à revista Veja representam mais do que uma crítica circunstancial ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino. Ao defender que o ex-governador do Maranhão deveria se declarar impedido de relatar processos envolvendo políticos maranhenses, Brandão levou para o plano institucional um conflito que, há muito, deixou de ser apenas uma disputa entre antigos aliados.

Poucas vezes a política maranhense assistiu à deterioração de uma relação construída durante tantos anos. Brandão não foi um aliado ocasional de Flávio Dino. Participou da formação do grupo que venceu as eleições de 2014, exerceu dois mandatos como vice-governador e foi o escolhido para sucedê-lo quando Dino deixou o Palácio dos Leões para disputar uma vaga no Senado e, posteriormente, assumir uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.

À época, a sucessão parecia representar a continuidade de um mesmo projeto político. O que se viu, entretanto, foi a transformação daquela aliança em uma das maiores disputas de poder da história recente do Estado.

Até hoje, permanece sem resposta objetiva a pergunta que domina os bastidores políticos: afinal, quem rompeu o acordo? Quem traiu quem?

O grupo ligado a Flávio Dino sustenta que Brandão, após consolidar-se no governo, teria promovido uma gradual substituição dos antigos aliados por um núcleo político próprio, modificando compromissos estabelecidos durante a transição administrativa e construindo um projeto sucessório independente.

Já Brandão e seus aliados apresentam narrativa inversa. Argumentam que nunca aceitaram a ideia de um governo submetido a tutela política permanente e afirmam que determinados entendimentos firmados durante a sucessão deixaram de ser respeitados pelo grupo dinista, tornando inevitável o afastamento.

É significativo que ambos utilizem praticamente o mesmo argumento: cada lado acusa o outro de ter rompido os compromissos políticos originalmente assumidos.

Essa divergência jamais foi formalizada em documentos públicos. Ela pertence ao universo das negociações políticas, onde versões frequentemente coexistem sem que uma delas possa ser definitivamente comprovada.

O rompimento, contudo, deixou rapidamente de ser apenas interno. Disputas envolvendo indicações para cargos estratégicos, composição da Assembleia Legislativa, nomeações, formação de alianças partidárias e definição da sucessão estadual passaram a produzir uma crescente judicialização da política maranhense.

Nesse contexto, a entrevista concedida por Brandão à Veja ganha relevância especial. Ao afirmar que Flávio Dino não deveria relatar processos envolvendo políticos do Maranhão, por considerar inadequado que um antigo adversário político exerça essa função jurisdicional, o governador desloca o debate do campo exclusivamente político para uma discussão sobre imparcialidade institucional.

Como referência, Brandão citou o ministro Kassio Nunes Marques, afirmando que este costuma declarar impedimento em processos relacionados ao Piauí devido à sua trajetória política naquele Estado. Trata-se de uma crítica que teve o objetivo de provocar um forte impacto político.

Mas isso não significa, por si só, que exista impedimento jurídico. A definição sobre impedimento ou suspeição de ministros do Supremo decorre da Constituição, da legislação processual e das regras internas da Corte, sendo examinada caso a caso. A declaração de Brandão, portanto, integra o debate político e institucional, mas não equivale a uma conclusão jurídica.

Enquanto isso, a sucessão estadual passou a refletir essa divisão. De um lado, Felipe Camarão tornou-se o principal representante do campo político identificado com Flávio Dino. Sua candidatura simboliza a tentativa de preservar o projeto iniciado em 2014 e manter unificado o grupo que promoveu a alternância de poder no Maranhão.

De outro, Brandão trabalha para consolidar um novo eixo político em torno de sua própria liderança, buscando construir uma sucessão que reflita sua gestão e sua autonomia. No momento, é dúvida se isso vai acontecer.

Não se trata apenas da disputa entre candidatos. É uma disputa entre dois projetos de poder originados no mesmo grupo político. Essa polarização acaba influenciando praticamente todas as decisões relevantes da política estadual.

A Assembleia Legislativa frequentemente se transforma em palco dessa disputa. As nomeações, as discussões sobre órgãos de controle (no TCE, por exemplo, onde Brandão ‘encaixou’ um sobrinho como conselheiro e presidente) e articulações partidárias também passam a ser interpretadas sob essa ótica.

Até mesmo episódios criminais acabam sendo absorvidos pelo ambiente de polarização. O caso Tech Office é um exemplo dessa realidade.

Embora possua natureza essencialmente policial e judicial, o episódio rapidamente passou a integrar o discurso político de diferentes grupos. Em torno dele surgiram interpretações, especulações e acusações que frequentemente extrapolam os fatos efetivamente estabelecidos pelas investigações e pelas decisões judiciais. Justamente por isso, qualquer análise responsável exige distinguir aquilo que está documentado daquilo que permanece no terreno das narrativas políticas.

Talvez essa seja uma das marcas mais evidentes da atual conjuntura maranhense. Quase nenhum episódio relevante permanece restrito ao seu objeto original. Questões administrativas transformam-se em disputas eleitorais. Questões eleitorais convertem-se em disputas judiciais. Questões judiciais retornam ao debate político. Forma-se um ciclo permanente de tensionamento institucional.

A entrevista concedida por Carlos Brandão à Veja apenas confirma essa dinâmica. Ao dirigir suas críticas diretamente a um ministro do Supremo que, durante anos, foi seu principal aliado político, o governador demonstra que a ruptura atingiu um estágio em que as divergências já não se limitam aos bastidores partidários.

Hoje, praticamente toda movimentação importante da política maranhense — das alianças eleitorais às decisões da Assembleia Legislativa, das estratégias para a eleição de 2026 às discussões travadas no Supremo Tribunal Federal — acaba sendo interpretada à luz da relação entre Flávio Dino e Carlos Brandão.

Talvez essa seja a maior consequência do rompimento. Mais do que dividir um grupo político, Brandão reorganizou todo um sistema de poder do Maranhão.

Independentemente de quem prevaleça nas urnas, permanecerá um desafio para a democracia estadual: reconstruir um ambiente em que divergências políticas sejam resolvidas prioritariamente pelo diálogo institucional e pela disputa eleitoral, sem que cada novo conflito seja imediatamente transportado para os tribunais ou interpretado como mais um capítulo de uma guerra entre antigos aliados.

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