Além dos 36 graus marcados pelos termômetros em Brasília, nesta terça feira, 2, a temperatura subiu mais ainda com as revelações envolvendo, mais uma vez, o presidenciável de direita Flávio Bolsonaro (PL), com a descoberta de mais uma “mordida” dele no banqueiro Daniel Vorcaro, no valor de quase 1,7 milhão de dólares, com a desculpa de que a grana financiaria o filme Dark Horse, sobre o pai que está preso.
A outra revelação, vazada pelo ministro do STF, André Mendonça, relator do caso Master, n tribunal, aumenta as suspeitas de conluio entre o colega Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro bandido Daniel Vorcaro.
Sem dúvidas
Segundo a Revista Piauí, a informação foi obtida de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Em maio, o site Intercept Brasil divulgou áudio em que Flávio Bolsonaro pedia o dinheiro para o ex-banqueiro. Agora, mais uma descoberta: o ex-banqueiro Daniel Vorcaro fez mais um repasse de US$ 1,666 milhão para o filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, em setembro de 2025, dias após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje candidato a presidente, cobrar parcelas que estavam atrasadas.
Esse repasse se soma a outros seis anteriores— dois de US$ 2 milhões e quatro de US$ 1,666 milhão —, realizados até maio de 2025, que já haviam sido noticiados em maio deste ano pelo site The Intercept Brasil, totalizando R$ 61 milhões.
“Com esse novo pagamento, que até agora era desconhecido, o total enviado por Vorcaro para a cinebiografia de Bolsonaro passou de 10,6 para 12,3 milhões de dólares — o que, na cotação da época, equivalia a mais de 65 milhões de reais”, afirma a “Piauí”.
Segundo a revista, a informação sobre o novo pagamento consta de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) obtido pela reportagem.
Flávio vinha afirmando que o último repasse feito por Vorcaro havia sido em maio de 2025, informação agora contrariada pelo relatório do Coaf. “Olha só. O último pagamento que ele fez […] foi em maio de 2025”, disse o senador em entrevista à GloboNews quando o caso foi revelado.
Segundo as apurações, os repasses de Vorcaro para o filme foram feitos por meio da empresa Entre Investimentos e Participações, de um aliado do ex-banqueiro. A Entre transferia o dinheiro para o fundo Havengate, nos Estados Unidos, controlado por um advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro. O fundo repassaria o dinheiro para a produtora, a empresa Go Up.
“Irmão, preferi te mandar o áudio aqui para você ouvir com calma. […] Eu sei que você está passando por um momento dificílimo aí também, essa confusão toda, você sem saber exatamente como é que vai caminhar isso tudo. E apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá?”, disse Flávio.
De acordo com a “piauí”, o repasse de setembro foi feito oito dias depois de Flávio cobrar as parcelas atrasadas — que, pelo acordo original, podiam alcançar R$ 134 milhões, segundo o Intercept.
Valor pode ser maior
Ainda segundo a “piauí”, o valor repassado por Vorcaro para o filme Dark Horse pode ser maior. A revista teve acesso a um trecho inédito de uma troca de mensagens entre Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, que atuou na captação de recursos para o filme.
Em mensagem ao banqueiro, em 22 de outubro de 2025, Miranda perguntou: “Consegue liberar as parcelas do filme?”. Vorcaro respondeu: “Sim. Liberei mais uma hoje”.
Miranda, então, disse: “Vou avisá-los. Flávio disse que iria te ligar tb [também]”.
“Se esse outro pagamento de 1,6 milhão de dólares foi efetivamente realizado como afirmou o banqueiro, o total desembolsado por ele vai para 14 milhões de dólares, ou 72 milhões de reais”, afirma a “piauí”.
Ao chegar ao Senado nesta terça-feira (1º), Flávio foi questionado pelos jornalistas sobre o novo repasse revelado pela piauí. O senador disse que o assunto deveria ser tratado com a produtora do filme.
“Bom, essas informações eu não tenho como saber porque eu não trato disso, gente. Tem que perguntar para a produtora, desculpa. Esse assunto eu não tenho como aprofundar. Tem que perguntar para a produtora.”
Investigações
O financiamento do filme de Bolsonaro é investigado em dois inquéritos perante o Supremo Tribunal Federal (STF).
O primeiro, sob relatoria do ministro André Mendonça, apura os repasses feitos por Vorcaro — em que circunstâncias foram feitos, qual a origem do dinheiro, qual o montante exato e qual seu destino final. Investigadores suspeitam que parte dos recursos não tenha sido usada no filme.
O segundo inquérito, sob relatoria do ministro Flávio Dino, investiga se a produtora Go Up usou emendas parlamentares para bancar a produção.
Há ainda uma investigação em São Paulo, conduzida pela Polícia Civil, que apura um contrato de mais de R$ 150 milhões entre a Go Up e a prefeitura para instalação de pontos de wi-fi em bairros da periferia. O contrato não foi cumprido integralmente e existem suspeitas de que parte dos valores foi desviada.
Investigações
Agora a briga sobre as revelações André Mendonça x Alexandre de Moraes. Ao saber que o ministro André Mendonça havia pedido o aprofundamento de investigações que acabaram por descortinar suas conversas com Daniel Vorcaro, o ministro Alexandre de Moraes quase chegou às vias de fato com o colega do Supremo.
Moraes pediu ontem (31/08) uma conversa com Mendonça, que o recebeu em seu gabinete. O encontro desandou. A coluna apurou que o clima esquentou, o tom ficou ríspido de parte a parte e, por pouco, a discussão não descambou para agressões físicas.
Moraes descobriu que Mendonça havia determinado à PF que revelasse quem era o interlocutor de Vorcaro em uma conversa na qual eram citados o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. A PF averiguou que se tratava de Moraes. No diálogo, Vorcaro pediria a Moraes “proteção” de Gonet e Andrei Rodrigues.
Mendonça quis saber como Moraes tomou conhecimento dessa investigação, que é sigilosa e está sob sua relatoria. “Eu tenho minhas fontes. Fui ministro da Justiça”, respondeu Moraes.
Moraes acusou o colega de direcionar as investigações para ele. Para investigar um ministro do Supremo, é preciso ter a concordância de todos os ministros da Corte.
A coluna apurou que, antes de os bombeiros entrarem em ação, haverá um “fogo de encontro”. Moraes está se municiando para contra-atacar Mendonça.







