
Mais da metade das maiores cidades do Brasil ainda investe menos do que o mínimo necessário em saneamento básico — um dado que, por si só, já explica por que o país segue distante de garantir água tratada e esgoto para todos. O Ranking do Saneamento 2026, do Instituto Trata Brasil, escancara uma realidade conhecida, mas persistente: o Brasil avança a passos lentos, enquanto regiões inteiras continuam à margem.
Dos 100 municípios mais populosos, 51 investem menos de R$ 100 por habitante ao ano — menos da metade dos R$ 225 considerados ideais pelo Plano Nacional de Saneamento Básico para universalizar o serviço até 2033. Na elite, apenas 17 cidades superam os R$ 200, e só dez atingem o padrão de excelência.
O mapa do saneamento no país segue um roteiro previsível — e preocupante. No topo, cidades do Sudeste, como Franca, São José do Rio Preto, Campinas e Santos, já universalizaram seus serviços. Na outra ponta, municípios do Norte e Nordeste, como Santarém, Porto Velho e Rio Branco, convivem com índices críticos.
A desigualdade se repete nos indicadores mais sensíveis. Nos 20 melhores municípios, mais de 98% da população tem acesso à coleta de esgoto. Nos 20 piores, o índice não chega a 28%. Quando o assunto é tratamento, a distância continua abissal: quase 78% contra pouco mais de 28%.
Hoje, mais de 30 milhões de brasileiros não têm acesso à água potável, e cerca de 90 milhões vivem sem coleta de esgoto — um contingente que traduz, em números, o tamanho do atraso estrutural.
Maranhão: entre os piores
Se o Brasil já enfrenta um cenário preocupante, o Maranhão aparece como um dos casos mais críticos. O estado figura, de forma recorrente, entre os três piores do país em indicadores de coleta e tratamento de esgoto, consolidando um histórico de negligência estrutural.
A capital, São Luís, simboliza esse atraso. No Ranking do Saneamento 2026, ocupa a 91ª posição entre os 100 maiores municípios, um desempenho que evidencia a dificuldade em universalizar serviços básicos mesmo em um centro urbano relevante.
Os problemas vão além da cobertura insuficiente. A cidade convive com níveis alarmantes de perdas na distribuição de água — quase 60% de tudo o que é produzido simplesmente não chega ao consumidor. É um desperdício que revela falhas graves de infraestrutura, gestão e investimento.
Na prática, isso significa que parte significativa da população ainda enfrenta intermitência no abastecimento, recorre a soluções precárias e convive com esgoto a céu aberto — um cenário incompatível com qualquer projeto de desenvolvimento.
Impacto na saúde e economia
A presidente executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, resume o problema com clareza: saneamento não é apenas infraestrutura — é saúde pública, educação e produtividade.
A ausência de água tratada e esgoto favorece a disseminação de doenças como dengue, leptospirose e diarreias, afetando principalmente crianças. O impacto é cumulativo: pior desempenho escolar, menor produtividade no trabalho e aumento da pressão sobre o sistema de saúde.
Em regiões mais vulneráveis, como o Maranhão, esse ciclo se retroalimenta. A falta de saneamento não apenas reflete a desigualdade — ela a aprofunda.
Gargalo trava o futuro
Apesar do Marco Legal do Saneamento estabelecer metas ambiciosas para 2033, a realidade indica que o país corre contra o tempo — e com fôlego curto. Mais da metade das grandes cidades ainda está fora da rota necessária.
No caso de São Luís e do Maranhão, o desafio é ainda maior: sair das últimas posições exigirá não apenas mais investimentos, mas também eficiência na gestão, redução de perdas e prioridade política real.
Sem isso, o saneamento continuará sendo o retrato mais fiel de um Brasil que avança — mas deixa milhões para trás.








