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São Luís (MA), 28 de novembro de 2020

“Me apaixonei virtualmente em plena pandemia, furei a quarentena e peguei Covid-19”

Sozinha e com a sobrevivência de sua agência de marketing digital ameaçada, a jornalista carioca Camila de Paula, 38 anos, começou a se comunicar com um seguidor do Instagram. As mensagens diretas logo viraram telefonemas demorados, e os dois decidiram furar a quarentena para se conhecer pessoalmente. Os dois não imaginavam, porém, que ele seria infectado pelo novo coronavírus -- e ela, por extensão, também
Camila (Foto: Acervo pessoal)
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“Desde o início das notícias sobre a Covid-19 no mundo, tive muito medo. Não faço parte daquele grupo que se acha imune só por ser jovem e sem nenhuma outra doença preexistente, já sabia que esse vírus costuma surpreender. Tenho uma amiga casada com um chinês e, no começo do ano, ela sempre me contava como estavam as coisas na China. Além disso, no fim de janeiro, conheci um inglês em bailes pré-carnavalescos e tive um affair de Carnaval. Ele vinha todo fim de semana me ver e tínhamos preocupação com o contágio dele, pois viajava muito em função do trabalho, visitando até cruzeiros durante a semana. A relação não resistiu à distância e ao fechamento dos aeroportos, foi o caso típico de algo que enfraqueceu, ao invés de se fortalecer diante das dificuldades.

Quando a Covid-19 estourou no Brasil, cancelando as aulas escolares, senti mais medo ainda. Nesse período, preferi deixar meu filho isolado com meus pais no sítio por ele ter comorbidade respiratória. Contudo, me sentia muito só o tempo todo e apreensiva. Somado a isso, minha vida profissional desmoronou, como era de se esperar. Meus clientes pararam com o atendimento e a medida imediata foi cortar o custo com a minha agência de marketing digital. Foi um efeito dominó, logo na primeira semana: recebia pedidos de suspensão dos serviços e quebras de contrato, tive que dispensar a equipe, fechar escritório, negociar cancelamentos e já lidar com inadimplências.

Em meio a essa apreensão toda de pegar a doença, sabendo que não teria quem me cuidasse, somado à saudade do meu filho, eu estava lidando com o problema financeiro de frente. Conta zerada mesmo, dívidas, uma empresa quebrada, despensa vazia. Medo, solidão, falta do meu filho. Esse era o cenário. Teve um dia que cheguei a ter uma espécie de pânico durante a noite: uma baita insônia, tremedeira e coração disparando. Dormi e acordei chorando muito.

Foi nessa fase que o Daniel apareceu fazendo exatamente o contrário. Nós nos conhecíamos por redes sociais havia uns dois anos, mas não temos ideia de como fomos parar no perfil um do outro. Ele curtia meus posts de vez em quando, sempre com o maior respeito, nada além disso. Sempre algo que eu escrevia sobre a vida, sobre política, sobre fé (compartilhamos da mesma espiritualidade). Nunca era aquela curtida como cantada. Eu também gostava da forma como ele se expressava. Era só. Embora me parecesse um homem interessante, eu realmente não pensava nele com segundas intenções.

Num belo dia, gostei de uma postagem e parei para olhar melhor seu perfil. Ainda não sei dizer se foi ali que o sininho das segundas intenções tocou, mas, naquela noite, não sei por que, sonhei com ele. Era como se ele me colocasse no colo e cuidasse de mim. Uma coisa onírica mesmo, sem sentido. Imagina… Alguém que eu nem conhecia e nenhuma referência tinha! Ao acordar, entrei no perfil dele e curti uns cinco posts de uma vez para chamar sua atenção. A famosa isca moderna. À tarde, ele me mandou uma mensagem me chamando para conversar. Naquela noite, 18 de março, batemos um papo longo por telefone e eu até esqueci as minhas aflições. Sua postura protetora e benevolente já se fez presente.

Passamos alguns dias assim, conversando muito sobre vários assuntos comuns, sempre por telefone, respeitando o isolamento. Sua presença, a todo tempo, me mantendo mais calma e segura. Chegou um momento em que eu já pedia conselhos, falava amenidades. Teve um dia que passamos cinco horas ao telefone, sendo que nenhum dos dois gosta muito de falar no telefone. Aos poucos fui organizando minhas finanças e saindo daquele quadro de desespero. Tomei os cuidados necessários e pude ver até meus pais e meu filho. Tudo foi melhorando.

Viemos de universos distintos e, em contraponto, temos inúmeros interesses comuns, entre eles o amor pela nossa espiritualidade. Eu sou nascida no catolicismo e me tornei umbandista. Ele é candomblecista, predominante na família. Eu sou boêmia e ele nunca bebeu uma dose de álcool. Mas adoramos passar horas conversando. Ele me contava sobre os itans africanos e achávamos extremamente emblemático nossos Orixás serem representados como a grande história de amor da mitologia africana: Oxum (meu) e Oxóssi (dele). A minha religião sempre foi uma barreira nos meus relacionamentos, lamentava não encontrar alguém que entendesse a minha fé.

Fora tantas afinidades, era impressionante o quanto eu me sentia cuidada, vendo a profecia do tal sonho se concretizando. Ele sempre perguntando se eu precisava de algo, de remédios ou compras, seja lá o que for para eu não ter que sair de casa. Ele sabia que eu não andava bem e me amparava sempre da forma que podia. Foi aí que eu não resisti e furei a quarentena. 

No dia 29 de março, nos vimos pela primeira vez. Eu tive toda a confiança em marcar na minha casa mesmo. Assim, ao menos fugíamos de aglomerações, furando o isolamento apenas um pelo outro. Ele veio no seu próprio carro, o protocolo ainda nem exigia máscara.

Foi como se já nos conhecêssemos há anos, mas isso não diminui a estranheza que é um dating em plena quarentena. Um exemplo disso é como manter alguns protocolos de segurança sem a menor intimidade. Imagine que passamos a noite juntos, mas isso não estava previsto. Então, eu lembro de falar toda sem jeito para ele trazer uma segunda peça de roupa para usar quando entrasse em casa, pois eu costumava tirar tudo ao chegar da rua. Ele, ao chegar, todo sem jeito pediu logo para usar o banheiro e se trocar. Mas ao sair, sem a roupa ‘contaminada’, me tascou um beijo e tudo começou. Seguimos nos conhecendo assim e tudo foi muito rápido. Nos falando todos os dias ao telefone e fazendo declarações.

Começamos um namoro em plena quarentena. Nos mantínhamos seguros assim, cada um saindo de casa apenas para nos encontrar e ir ao mercado. Porém, no dia 27 de abril, o avô do filho dele passou mal, ele correu para ajudar a socorrê-lo, com a ex-mulher (que se tornou sua amiga). Isso envolveu muita exposição ao vírus, pode ter sido aí que ele contraiu a doença, mas não se sabe ao certo quando foi e quem passou para quem. O fato é que em primeiro de maio, que caiu em uma sexta-feira, ele, que já se sentia gripado há uns dias, começou a sentir febre e ficamos preocupados.

Nesse fim de semana eu falei para ele não ficar sozinho e vir à minha casa que eu poderia cuidá-lo. Nem pensei em contágio, nem nada, só em não deixá-lo sozinho. Passamos o fim de semana juntos e na segunda-feira ele soube que o resultado do filho e da ex deu positivo. Quando ele me disse, eu já pensei: estamos! Tanto eu, quanto ele. Fato que foi corroborado com nossos testes e com os sintomas que fomos sentindo nos próximos dias. Por sorte tive sintomas leves, mas o perigo foi grande. Ele teve um pouco mais intensos do que eu.

Um dia ele ficou com muito medo da intensidade da falta de ar e correu até a minha casa. Medimos a sua oxigenação, estava baixa, e corremos para um hospital. Enquanto o acompanhava, pensava no quanto já sentíamos no outro uma sensação de proteção e conforto, coisa de quem tem uma relação longa e não há menos de dois meses juntos. Fora a intimidade que se impôs, já que a Covid-19 trouxe desânimo, febre, diarreia, coisas que não são nada sedutoras ou confortáveis.

Depois desse episódio decidimos passar uns dias na casa dele até a doença passar. Assim, um cuidava do outro. Ele perdeu os pais muito jovem e, por mais que tivesse familiares e amigos próximos, certamente também se sentia só.”

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