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São Luís (MA), 3 de setembro de 2026

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Mensagens que incomodam: a coerência que falta a Flávio Bolsonaro

Flávio Bolsonaro foi um dos primeiros a ocupar a tribuna do Senado para cobrar o impeachment de Alexandre de Moraes, depois que vieram a público mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, nas quais o banqueiro mantinha contato com o ministro do Supremo. A cobrança seria perfeitamente legítima — afinal, ministros do STF não estão acima de críticas, investigações ou responsabilização. O problema é quem faz a acusação e em que circunstâncias.

Sabíamos que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, jamais foi exatamente um exemplo de moderação política. Filho de Jair Bolsonaro, entrou cedo na política e aprendeu, ao longo dos anos, que a confrontação permanente, a acusação e a exploração política das fragilidades dos adversários podem render dividendos eleitorais. Mas há momentos em que a realidade parece ultrapassar a própria caricatura.

Foi o que aconteceu agora. Flávio Bolsonaro foi um dos primeiros a ocupar a tribuna do Senado para cobrar o impeachment de Alexandre de Moraes, depois que vieram a público mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, nas quais o banqueiro mantinha contato com o ministro do Supremo.

A cobrança seria perfeitamente legítima — afinal, ministros do STF não estão acima de críticas, investigações ou responsabilização. O problema é quem faz a acusação e em que circunstâncias.

Porque, quando se olha para o outro lado da história, aparece o próprio Flávio Bolsonaro em uma relação de proximidade com Vorcaro que está longe de ser apenas protocolar.

As mensagens reveladas pelo The Intercept Brasil mostram o senador negociando com o banqueiro o financiamento de Dark Horse, filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. A negociação previa nada menos que US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões na cotação da época. Flávio aparece cobrando pagamentos atrasados, apelando para que Vorcaro honrasse os compromissos e demonstrando preocupação com a produção e com seus profissionais.

Não se trata, portanto, de uma relação inventada pela oposição. O próprio senador reconheceu que mantinha contato com Vorcaro e sustentou que se tratava de um financiamento privado para um filme privado.

O problema é que a história foi ficando maior. Informações posteriores obtidas pela revista piauí indicam que Vorcaro fez, em setembro de 2025, um novo repasse de US$ 1,66 milhão para o Havengate Development Fund, fundo americano ligado ao financiamento do filme. Com esse pagamento, o total conhecido enviado pelo banqueiro para o projeto chegou a US$ 12,3 milhões — mais de R$ 65 milhões na época.

É aqui que a situação começa a ganhar contornos quase surreais. De um lado, Flávio Bolsonaro sobe à tribuna para dizer que Alexandre de Moraes deve ser responsabilizado por manter contato com Daniel Vorcaro. De outro, o próprio Flávio aparece nas conversas com o banqueiro, cobrando dinheiro para um projeto cinematográfico ligado à sua família.

É preciso perguntar: qual é exatamente o padrão ético que vale para um e qual vale para o outro?

Não se está dizendo, com isso, que uma relação com Vorcaro torna automaticamente culpado quem quer que tenha conversado com ele. Seria uma conclusão absurda. O que se está dizendo é que a régua precisa ser a mesma para todos. E, nesse ponto, Flávio Bolsonaro talvez tenha um problema maior do que imagina.

O argumento de que Moraes deveria ser afastado simplesmente porque conversou com Vorcaro não resiste, sozinho, ao escrutínio. As mensagens divulgadas pela Polícia Federal são, sim, graves e merecem investigação. Segundo as informações reveladas a partir do material apreendido, Vorcaro procurava o ministro enquanto tentava acompanhar as investigações que atingiam o Banco Master e se aproximava a sua prisão. Também vieram à tona contatos pessoais e discussões envolvendo o escritório de advocacia da esposa de Moraes. Isso precisa ser esclarecido.

Um ministro do Supremo não pode se comportar como um cidadão qualquer quando mantém relações pessoais ou profissionais com alguém submetido a investigações de enorme gravidade. A aparência de conflito de interesses, por si só, já é suficientemente preocupante para exigir explicações transparentes.

Existe uma velha máxima que continua atual: não basta ser honesto; é preciso também parecer honesto.

Alexandre de Moraes, pela posição que ocupa e pelo peso que exerce na República, deveria saber disso melhor do que ninguém. Um ministro do STF pode ser firme. Pode ser controverso. Pode tomar decisões duríssimas. Pode desagradar à direita, à esquerda ou aos dois lados simultaneamente. Mas justamente por exercer tamanho poder precisa redobrar os cuidados com suas relações, seus contratos e suas circunstâncias.

Moraes tem, portanto, muito a explicar. Mas Flávio Bolsonaro também.

E é aí que o discurso do senador começa a tropeçar na própria sombra.

Porque não parece razoável transformar qualquer contato de Moraes com Vorcaro em evidência suficiente para pedir impeachment, enquanto se trata como mera relação comercial ou cinematográfica uma proximidade financeira muito mais explícita entre o próprio Flávio e o banqueiro.

O paradoxo é evidente.

Flávio quer que o país olhe para as mensagens de Vorcaro com Moraes. Mas talvez o país também devesse olhar, com a mesma atenção, para as mensagens de Vorcaro com Flávio.

E há mais: quando questionado pelo Intercept sobre o financiamento do filme, Flávio inicialmente negou que a produção fosse bancada por Vorcaro. Depois, diante das mensagens e áudios publicados, admitiu a relação e prometeu tornar públicos os documentos referentes ao financiamento. Até aqui, segundo as reportagens disponíveis, a transparência prometida não resolveu todas as dúvidas que permanecem sobre o dinheiro e sua destinação.

É justamente por isso que a cena no Senado ganha uma dimensão quase teatral: Flávio Bolsonaro, cobrando de Davi Alcolumbre providências contra Alexandre de Moraes, como se estivesse completamente distante da história de Daniel Vorcaro. Mas não está…

E o presidente do Senado, ao responder às pressões pelo impeachment, chegou a mencionar justamente os pagamentos relacionados a Dark Horse, lembrando que senadores haviam solicitado valores expressivos para a produção.

Foi preciso dar um sossega leão ao presidenciável da direita para ele voltar à superfície.

A política brasileira tem dessas ironias: às vezes, o acusador carrega no bolso documentos que podem obrigá-lo a sentar-se no banco das explicações.

Não se trata de absolver Moraes. Muito menos de transformar Vorcaro em vítima. O ex-banqueiro está no centro de uma investigação de enorme gravidade, e tudo o que surgir de suas mensagens precisa ser examinado pelas autoridades competentes.

Mas uma democracia séria não funciona pela lógica de que o pecado do adversário é crime e o nosso é apenas uma circunstância.

Se há indícios contra Alexandre de Moraes, que sejam investigados.

Se há dúvidas sobre sua relação com Vorcaro, que sejam esclarecidas.

Se houve conflito de interesses, que seja apurado.

E se alguém tiver cometido crime ou falta funcional, que responda por isso — seja ministro do Supremo, senador da República, banqueiro ou qualquer outro cidadão. O que não pode existir é uma justiça política de dois pesos e duas medidas.

Principalmente quando quem empunha a espada contra o adversário aparece, nas mesmas páginas da investigação, sentado à mesa do mesmo banqueiro.

Antes de pedir a cabeça de Moraes, talvez Flávio Bolsonaro devesse explicar, sem gargalhadas, sem bravatas e sem rodeios, o tamanho da sua própria relação com Daniel Vorcaro.

Porque, no fim das contas, a pergunta que fica não é apenas o que Moraes tem a explicar.

É o que Flávio Bolsonaro tem a esclarecer — e por que ele parece tão interessado em que ninguém faça essa pergunta.

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