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São Luís (MA), 19 de agosto de 2026

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Do Tech Office ao Palácio dos Leões: até onde Flávio Dino poderá apertar Carlos Brandão?

O afastamento de Daniel Brandão do TCE e o depoimento explosivo do condenado pelo crime do Tech Office, Gilbson Cutrim, colocam o governador Carlos Brandão diante da mais grave crise política e institucional de seu governo

O afastamento de Daniel Brandão do TCE e o depoimento explosivo do condenado pelo crime do Tech Office colocam o governador Carlos Brandão diante da mais grave crise política e institucional de seu governo.

O caso que começou com um assassinato no hall de entrada de um edifício comercial de São Luís, em agosto de 2022, está assumindo proporções que ultrapassam, em muito, os limites de uma investigação criminal.

O Tech Office, onde João Bosco Sobrinho foi morto a tiros, transformou-se no ponto de convergência de uma investigação da Polícia Federal que passou a reunir suspeitas de corrupção, circulação de dinheiro, possível obstrução da Justiça, tentativa de ocultação de evidências e relações entre personagens que ocupam — ou ocuparam — posições estratégicas na política maranhense.

Agora, a investigação chegou ao coração do poder.

E chegou pelas mãos de Flávio Dino.

Na segunda-feira (17), o ministro do Supremo Tribunal Federal determinou o afastamento, por 180 dias, de Daniel Itapary Brandão, sobrinho do governador Carlos Brandão e presidente do Tribunal de Contas do Estado do Maranhão. Para Dino, a permanência de Daniel no comando do órgão de fiscalização representava risco à investigação e ao próprio patrimônio público, diante dos indícios reunidos pela Polícia Federal.

Não se trata, portanto, de uma simples troca administrativa no TCE.

É uma decisão que atinge diretamente o núcleo político do governador.

E, como se isso já não fosse suficientemente grave, um depoimento tornado público nas últimas horas acrescentou uma peça capaz de mudar novamente a temperatura do caso.

“Eu levava dinheiro para dentro do Palácio”

Gilbson César Soares Cutrim Júnior, condenado a 13 anos de prisão pelo assassinato de João Bosco, afirmou à Polícia Federal que atuava no transporte de dinheiro relacionado ao esquema investigado e que chegou a levar valores para o Palácio dos Leões.

Segundo o depoimento divulgado, Gilbson declarou que pegava dinheiro para integrantes do grupo e o levava para Carlos Brandão. A acusação é direta e gravíssima.

O governador, evidentemente, nega.

Brandão reagiu dizendo ser “revoltante” que um réu confesso condenado por homicídio esteja pautando o debate público e rejeitou categoricamente as acusações de que seria chefe de uma organização criminosa ou de que teria recebido valores ilícitos dentro do Palácio.

É preciso registrar isso com todas as letras.

O depoimento de Gilbson é uma acusação. Não é, por si só, uma condenação de Carlos Brandão.

Mas seria igualmente irresponsável tratá-lo como um detalhe irrelevante.

Porque ele não surgiu isoladamente.

Está inserido em uma investigação federal que já produziu medidas cautelares contra pessoas próximas ao governador e que levou o ministro Flávio Dino a afastar seu sobrinho da presidência do órgão encarregado de fiscalizar as contas do próprio governo estadual.

É justamente essa combinação que torna o episódio politicamente explosivo.

A história que agora precisa ser explicada

De acordo com o relato prestado à PF, Gilbson teria conhecido Carlos Brandão quando ele ainda era vice-governador. Posteriormente, teria estabelecido contato com Daniel Brandão e passado a atuar na cobrança e circulação de valores relacionados a contratos públicos.

O depoimento também descreve uma suposta relação entre contratos, empresários, cobranças de dinheiro e interesses políticos.

E há um ponto especialmente delicado: o próprio assassinato de João Bosco aparece, segundo a investigação, relacionado à disputa em torno desses valores.

A versão de Gilbson é que ele foi atraído para uma reunião no Tech Office, onde estavam Daniel Brandão, João Bosco e o vereador Beto Castro. A discussão teria evoluído para ameaças e terminado com os disparos que mataram Bosco.

A PF encontrou elementos que considera compatíveis com parte dessa narrativa, inclusive registros de imagens que colocam Daniel Brandão no local do crime.

Mais do que isso: a investigação passou a questionar a maneira como a apuração original do assassinato foi conduzida e se houve tentativa de impedir que a presença de Daniel Brandão fosse devidamente esclarecida.

É nesse ponto que o caso deixa de ser apenas o assassinato de João Bosco.

Passa a ser também uma investigação sobre o que aconteceu depois do assassinato.

Dino tira Daniel do TCE

A decisão de Flávio Dino é reveladora.

Daniel Brandão não foi afastado apenas porque é investigado. Dino apontou a incompatibilidade entre a posição de presidente do TCE e os indícios existentes contra ele, especialmente porque o tribunal exerce controle sobre as contas do governo comandado por seu próprio tio.

O ministro também apontou suspeitas envolvendo empresas ligadas à família Brandão e a possibilidade de utilização de recursos para comprar o silêncio de Gilbson.

Aqui está a questão que passa a incomodar o Palácio dos Leões:

se o sobrinho do governador foi afastado porque sua permanência no comando do TCE poderia comprometer a investigação, o que acontecerá se a investigação produzir provas independentes capazes de confirmar as acusações feitas contra o próprio governador?

Essa é uma pergunta jornalística.

Não uma sentença.

O cerco chegou a Brandão?

Carlos Brandão já percebeu a dimensão do problema.

Nesta terça-feira (18), sua defesa pediu ao Supremo a suspensão do inquérito relatado por Flávio Dino e sustentou que a investigação deveria tramitar no Superior Tribunal de Justiça, foro constitucionalmente previsto para governadores. A defesa também contesta a competência de Dino para conduzir o caso.

A movimentação revela que a batalha deixou de ser apenas investigativa.

Agora é também uma disputa institucional.

De um lado, a Polícia Federal e Flávio Dino sustentam a necessidade de aprofundar uma investigação que, segundo os elementos divulgados, alcança figuras muito próximas ao governador.

De outro, Carlos Brandão e seus aliados contestam a legalidade da condução do procedimento, questionam a credibilidade do principal acusador e denunciam o que consideram uma perseguição política.

E há uma circunstância impossível de ignorar:

Flávio Dino e Carlos Brandão foram aliados.

A ruptura entre os dois transformou o Maranhão numa das arenas políticas mais conflagradas do país.

Agora, o ex-governador que um dia ajudou a construir a carreira política de Brandão está, como ministro do STF, no centro de uma investigação que pode atingir o atual governador.

A sucessão de coincidências é grande demais para ser ignorada

Há uma espécie de roteiro político que ninguém imaginaria alguns anos atrás.

Primeiro, um assassinato.

Depois, uma investigação sobre dinheiro e contratos públicos.

Em seguida, versões conflitantes sobre a presença de pessoas ligadas ao governo no local do crime.

Depois, suspeitas de que a investigação original teria sido manipulada ou limitada.

Mais tarde, a entrada da Polícia Federal.

A suspeita de tentativa de interferência na investigação.

O levantamento do sigilo.

O afastamento de Daniel Brandão do TCE.

E, agora, o depoimento de um condenado afirmando que levava dinheiro para dentro do Palácio dos Leões.

É uma sequência suficientemente grave para exigir respostas.

Não apenas do governador.

Do Ministério Público.

Da Polícia Federal.

Do Supremo.

E das instituições de controle.

O próximo passo não é necessariamente o afastamento de Brandão

Aqui está o ponto que não pode ser confundido.

Flávio Dino não pode simplesmente “apear” Carlos Brandão do governo porque um depoente fez acusações contra ele.

Governador não perde o cargo por decisão política de um ministro do STF.

Seria necessário um caminho jurídico próprio, com observância do foro, do devido processo legal e das garantias constitucionais.

Mas isso não significa que Brandão esteja politicamente fora de perigo.

Muito pelo contrário.

Se as acusações de Gilbson forem confirmadas por documentos, registros bancários, mensagens, imagens, testemunhos, contratos, movimentações financeiras ou outros elementos independentes, a situação do governador poderá mudar radicalmente.

E é exatamente isso que a sociedade maranhense precisa saber.

Não basta perguntar:

“Gilbson está dizendo a verdade?”

A pergunta correta é:

“Que provas existem — ou poderão existir — para confirmar ou desmentir o que Gilbson está dizendo?”

É isso que a investigação precisa responder.

Do crime à política

O caso Tech Office ganhou uma dimensão que nenhum dos seus protagonistas provavelmente imaginava quando João Bosco foi assassinado.

O cadáver ficou para trás.

Mas as perguntas permaneceram.

Quem mandou?

Por quê?

Que dinheiro estava em disputa?

Quem recebia?

Quem cobrava?

Quem sabia?

Quem tentou esconder?

Quem interferiu?

E, sobretudo:

por que uma investigação sobre um assassinato passou a alcançar o Tribunal de Contas, a Polícia Federal, o Supremo Tribunal Federal, o Palácio dos Leões e uma das mais importantes disputas políticas do Maranhão?

São perguntas que não podem ser respondidas pela polarização entre “dinistas” e “brandonistas”.

Porque, se as suspeitas forem comprovadas, estaremos diante de algo muito maior do que uma briga política.

E, se forem desmentidas, também será necessário explicar por que uma investigação dessa magnitude chegou tão perto do governador.

O Maranhão diante de uma encruzilhada

Flávio Dino já deu um sinal inequívoco ao afastar Daniel Brandão:

o poder político não será, em princípio, argumento suficiente para impedir o avanço da investigação.

Agora, a responsabilidade é das instituições.

Se houver provas contra Carlos Brandão, elas terão de aparecer.

Se não houver, isso também deverá ficar demonstrado.

O que não pode acontecer é o Maranhão assistir à transformação de um dos casos mais graves de sua história recente em mais um capítulo de uma guerra política entre antigos aliados.

Porque o que está em jogo não é apenas o futuro de Carlos Brandão.

Não é apenas a carreira de Flávio Dino.

Não é apenas o destino político de Daniel Brandão.

É a credibilidade das próprias instituições do Estado.

E, depois do depoimento que colocou o Palácio dos Leões no centro da narrativa, a pergunta que fica é inevitável:

Flávio Dino já afastou Daniel Brandão do TCE. Se as provas avançarem e alcançarem Carlos Brandão, até onde chegará o cerco?

o-o-o-o-o-o

José Machado – daqui a pouco no www.maranhaobrasil.com.br

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