Seria um verdadeiro vale-tudo, com brigas, traições, muito gasto com o dinheiro público e pouca ética
Enquanto governadores de todo o país iniciam 2026 sob forte pressão do calendário eleitoral, o Maranhão desponta como um dos estados onde a sucessão promete ser mais conflituosa e imprevisível. Diferentemente de outras unidades da federação, onde a transição de poder tende a ocorrer de forma pactuada, o cenário maranhense é marcado por disputas internas, desconfianças mútuas e um racha aberto entre grupos que, até pouco tempo atrás, orbitavam o mesmo campo político.
Nos bastidores do Palácio dos Leões, a avaliação predominante é de que o governador Carlos Brandão já teria tomado sua decisão estratégica: permanecer no cargo até o final do mandato para trabalhar a viabilização eleitoral do sobrinho, Orleans Brandão, apontado como o nome do grupo governista para a disputa ao governo em outubro. A escolha, ainda não anunciada oficialmente, vem sendo tratada como “martelo batido” entre aliados próximos do governador.
Esse movimento praticamente enterra um acordo político costurado anos atrás, segundo o qual Brandão deixaria o cargo em abril para que o vice-governador Felipe Camarão (PT) assumisse o governo e disputasse a reeleição no exercício do mandato. A hipótese, que chegou a ser considerada natural dentro da aliança formada após a saída de Flávio Dino do governo, hoje é vista como descartada por fontes de ambos os lados.
Racha com raízes profundas
O impasse atual reflete um desgaste que se aprofundou ao longo do mandato. De um lado, o grupo liderado por Carlos Brandão, que consolidou controle sobre a máquina administrativa e ampliou alianças no interior do estado. Do outro, o campo político alinhado ao ex-governador, senador e atual ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino, que mantém influência significativa em setores da esquerda, em movimentos sociais e em parte expressiva do PT maranhense.

O que antes era tratado como divergência pontual evoluiu para uma relação de desconfiança aberta. Aliados de Dino acusam o grupo de Brandão de tentar isolar politicamente o vice-governador Felipe Camarão e esvaziar compromissos assumidos no passado. Já governistas veem o entorno de Dino como um polo permanente de pressão e instabilidade, disposto a tensionar o governo até o limite.
O clima é descrito, por interlocutores de ambos os campos, como de “guerra fria”, com episódios de tensão que se acumulam e indicam que dificilmente haverá pacificação antes do prazo legal de abril, quando se encerra o período para desincompatibilização de cargos.
Os cenários possíveis para 2026
Diante desse quadro, pelo menos três cenários eleitorais se desenham no Maranhão:
1. Brandão fica até o fim e aposta em Orleans
É o cenário considerado hoje mais provável. Carlos Brandão permaneceria no governo, usando o peso da máquina administrativa e da base municipal para impulsionar a candidatura de Orleans Brandão, ainda visto como politicamente inexperiente, mas com forte respaldo familiar e institucional. O desafio seria transformar essa candidatura em algo competitivo diante de adversários mais conhecidos do eleitorado.
2. Felipe Camarão fora da cabeça de chapa
Com a hipótese de assumir o governo praticamente descartada, Felipe Camarão passa a enfrentar um dilema político: insistir em uma candidatura ao governo sem o comando do Executivo ou recuar para outra posição na chapa majoritária, como o Senado ou mesmo a vice, dependendo das negociações nacionais do PT.
3. Fragmentação do campo governista
Caso não haja recomposição até o período das convenções, cresce a possibilidade de uma divisão explícita do campo hoje alinhado ao governo federal, com candidaturas concorrentes disputando o mesmo eleitorado. Esse cenário abriria espaço para forças de oposição ou para nomes de centro-direita que observam a crise com cautela e pragmatismo.
4. Ao mesmo tempo que essas brigas políticas no âmbito da situação tomam espaço na mídia, o nome do prefeito de São Luís, Eduardo Braide vem se fortalecendo como candidato, segundo anunciam algumas pesquisas de opinião feitas com algum cuidado. E se há um represamento desse crescimento é por conta da própria indecisão do alcaide, que ainda não se declarou pretendente. E, assim, nem brandonistas nem dinistas nem os pretendentes de direita ainda não sabem como se conduzir na sucessão.
Lula, fiador da unidade — ao menos no discurso
Em meio ao impasse, o presidente Lula tem afirmado a interlocutores que ainda pretende atuar como fiador da unidade no Maranhão, apostando em sua capacidade de mediação para reunir os diferentes grupos em torno de um projeto comum nas eleições de outubro. A avaliação no Planalto, porém, é de que a tarefa será complexa, dado o grau de desgaste acumulado entre os atores locais.
Para analistas políticos, o Maranhão se tornou um teste relevante para o lulismo em 2026: ou o presidente conseguirá recompor uma aliança estratégica em um dos estados mais importantes do Nordeste, ou o racha local servirá como sinal de alerta sobre os limites da conciliação em disputas regionais cada vez mais personalizadas.
Enquanto isso, o relógio eleitoral avança, e a sucessão maranhense segue como uma das mais observadas — e tensas — do país.







