Entre expectativas e cautela: Até há pouco tempo assunto de laboratório, a polilaminina virou tema de decisões judiciais, boletins médicos e das conversas de famílias que convivem com lesão medular.
No Maranhão, um policial militar baleado no pescoço apresentou melhora na respiração e nos movimentos depois de receber a substância em caráter experimental. Outros três pacientes que tiveram acesso à aplicação por decisão judicial morreram semanas depois, devido a complicações clínicas.
Segundo pesquisadores, não há evidência de que as mortes tenham relação com a substância. O fato é que a polilaminina ainda não é um tratamento aprovado, e faz parte de um ensaio clínico autorizado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para avaliar sua segurança.
O que é a polilaminina?
A polilaminina é uma forma organizada de uma proteína que já existe no corpo humano: a laminina.
Essa proteína ajuda a sustentar e estruturar as células, especialmente no sistema nervoso. Com o passar dos anos, sua presença no organismo diminui, e isso pode influenciar a capacidade de regeneração dos tecidos.
Foi estudando esse comportamento que a bióloga Tatiana Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, conseguiu produzir em laboratório uma versão organizada dessa proteína, formando uma espécie de rede microscópica mais estável. Parte das pesquisas utilizou proteínas extraídas de placentas humanas, materiais biologicamente ricos nesse tipo de componente estrutural.
A partir daí, a substância foi testada de forma experimental em oito pacientes paraplégicos e tetraplégicos, e seis deles apresentaram algum grau de recuperação de movimento. Em um dos casos relatados, um paciente que estava paralisado do ombro para baixo voltou a caminhar.
Como ela age no organismo?
Quando a medula sofre uma lesão, o problema não termina no momento do trauma. O local fica inflamado, forma cicatriz e cria uma barreira que dificulta o crescimento das fibras nervosas.
A ideia da polilaminina é tentar melhorar esse ambiente. Nos estudos com animais, ela ajudou a estimular o crescimento de fibras nervosas e a reduzir parte da inflamação que atrapalha a recuperação.
Em outras palavras: em vez de substituir a medula ou “reconstruir” o que foi perdido, a substância tenta dar melhores condições para que o próprio organismo consiga reorganizar conexões.
O que já foi observado em animais e em humanos?
Os resultados mais consistentes ainda vêm de estudos com animais. Ratos com lesão medular que receberam polilaminina tiveram melhora nos movimentos, ao contrário dos que não passaram pelo tratamento.
O mesmo ocorreu com cães que tinham lesão crônica, que também apresentaram melhora motora em parte dos casos.
Já em humanos, o caminho está recém iniciado. A autorização da Anvisa se refere a um estudo de fase 1, que avalia principalmente a segurança.
Alguns pacientes com lesão aguda tiveram recuperação parcial após a aplicação, mas nem todos evoluíram da mesma forma. E ainda não há estudos comparativos em escala suficiente para que se possa afirmar o tamanho real do efeito.
Quem poderia se beneficiar da polilaminina se os resultados se confirmarem?
Até agora, o foco está em lesões medulares recentes, tratadas pouco tempo depois do trauma, porque o tecido ainda está em fase ativa de resposta inflamatória.
Por outro lado, lesões antigas e já consolidadas são mais difíceis de modificar. Nesse cenário, não há evidência sólida de benefício, e também não existem dados suficientes para dizer se a substância poderia servir para outras doenças neurológicas.
Especialistas destacam ainda outro ponto importante: cada lesão é única. Nível atingido, extensão do dano, idade do paciente, tempo até a intervenção, tudo isso influencia o resultado e ajuda a explicar por que os efeitos podem variar tanto de uma pessoa para outra.
Quais os riscos e incertezas até agora?
Os dados atuais indicam que a aplicação da substância foi tolerada nos pacientes acompanhados, mas o número ainda é pequeno.
Também é preciso separar recuperação espontânea de efeito real do tratamento. Em algumas lesões incompletas, alguma melhora pode acontecer naturalmente nas primeiras semanas. Só estudos maiores conseguem responder com clareza o que é coincidência e o que é resultado direto da substância.
Onde a polilaminina está hoje:
| O que é | Versão reorganizada de uma proteína do corpo (laminina), ligada à estrutura do sistema nervoso. |
|---|---|
| Como age | Tenta tornar o ambiente da lesão menos hostil, favorecendo a reconexão das fibras nervosas. |
| O que já apareceu | Resultados consistentes em animais e relatos iniciais de recuperação parcial em alguns pacientes. |
| Em que fase está | Ensaio clínico de fase 1 autorizado pela Anvisa, voltado à segurança. |
| O que ainda não há | Comprovação clínica ampla de eficácia nem aprovação para uso geral. |
Polilaminina: corte de verbas levou a perda de patente internacional, diz cientista

Tatiana Sampaio, cientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), alega que a patente internacional da polilaminina foi perdida devido à interrupção de verbas para pesquisa na universidade entre os anos de 2015 e 2016.
De acordo com Tatiana, a concessão da patente nacional levou 18 anos para ser finalizada, ocorrendo apenas em 2025. Como o prazo total de validade é de 20 anos, restam somente 2 anos de exclusividade para a cientista no país. Já o registro estrangeiro deixou de existir pela falta de pagamento das taxas obrigatórias, antes custeadas pela universidade.
Com o corte de verbas, falou a cientista, não havia mais dinheiro para pagar as patentes internacionais. “Perdemos tudo, ficamos só com a nacional porque eu paguei do meu bolso por 1 ano”, afirmou em entrevista ao canal TV 247 no YouTube.
A cientista relatou que chegou a utilizar recursos próprios para tentar manter a proteção do medicamento, mas não conseguiu evitar a perda internacional. Para ela, o prejuízo afeta o reconhecimento da ciência nacional e de toda a equipe envolvida no estudo por anos.
Entenda o que é a polilaminina
A polilaminina consiste em uma versão sintética melhorada da proteína laminina, que é retirada de placentas humanas. Sua função é ser uma espécie de guia em casos de lesões medulares, promovendo a união de fibras nervosas que foram rompidas. O processo de regeneração em seres humanos acontece de forma gradual ao longo de alguns meses.
Os testes realizados apresentaram resultados significativos. Em um grupo de oito pacientes com lesão medular completa (quadro com apenas 10% de probabilidade de melhora), seis voltaram a apresentar algum movimento após o tratamento e um deles conseguiu caminhar novamente.
Atualmente, o composto ainda não possui registro oficial, o que tem levado pacientes a buscarem autorização na Justiça para atuar como voluntários clínicos. Em um avanço recente, ocorrido em 5 de janeiro, a Anvisa liberou a fase 1 do estudo clínico. Essa etapa permite testar a segurança da substância por meio da aplicação direta na área lesionada de cinco pacientes que sofreram traumas recentes na medula espinhal.
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