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São Luís (MA), 5 de março de 2026

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Desemprego no MA empurra trabalhadores para a estrada. E para a morte!

Um ônibus com 51 trabalhadores maranhenses tombou no trecho da Rodovia Transbrasiliana. O saldo: oito mortos, 43 feridos. Todos haviam deixado o Maranhão com destino a Santa Catarina, onde trabalhariam na colheita de maçã. Iam em busca do que lhes falta em casa: emprego, renda, dignidade. Não se trata de fatalidade isolada. Trata-se de consequência. (LEIA)

Tragédia anunciada! A cena que se repetiu na madrugada de 16 de fevereiro, na BR-153, entre Ocauçu e Marília, no interior de São Paulo, não é apenas um acidente rodoviário. É o retrato cruel de um modelo social que fracassa há décadas.

Um ônibus com 51 trabalhadores maranhenses tombou no trecho da Rodovia Transbrasiliana. O saldo: oito mortos, 43 feridos. Todos haviam deixado o Maranhão com destino a Santa Catarina, onde trabalhariam na colheita de maçã. Iam em busca do que lhes falta em casa: emprego, renda, dignidade. Não se trata de fatalidade isolada. Trata-se de consequência. LEIA

O ônibus sinistrado, uma lembrança amarga para quem perdeu seu ente-querido

Exportando gente

O Maranhão, historicamente, figura entre os estados com maior número de trabalhadores resgatados em condições análogas à escravidão no Brasil. Décadas de pobreza estrutural, baixa industrialização e oportunidades escassas criaram um fluxo constante de migração interna — sobretudo para o Sudeste e o Sul.

O roteiro é conhecido: aliciadores percorrem cidades do interior prometendo trabalho sazonal na agricultura ou na construção civil. Homens jovens — e cada vez mais mulheres — embarcam em ônibus fretados, muitas vezes em condições precárias. Deixam mães, esposas, filhos. Partem com a mala cheia de esperança. E nem todos voltam.

Quando voltam, frequentemente retornam desempregados, doentes, explorados. Ou, como nesta semana, dentro de caixões.


Direito ignorado

A Constituição assegura o direito ao trabalho e à dignidade. Não como favor — mas como garantia fundamental.

Se milhares de maranhenses precisam atravessar o país para colher maçã, cortar cana, trabalhar em frigoríficos ou na construção civil, isso revela algo elementar: o Estado não está conseguindo oferecer oportunidades mínimas dentro de suas próprias fronteiras. E aqui reside o ponto central.

Enquanto a propaganda oficial insiste em anunciar que “os problemas sociais estão sendo resolvidos”, os números e as estradas contam outra história. Não há, até o momento, um projeto estruturante de grande alcance capaz de alterar o padrão histórico de dependência econômica do Maranhão. Não há política industrial robusta. Não há programa consistente de geração de empregos em escala compatível com a demanda. Há marketing. E Carnaval!


Antes dos acidentes

O acidente na BR-153 começou muito antes do pneu estourar. Começou na ausência de emprego. Começou na informalidade do recrutamento. Começou na precariedade da fiscalização do transporte. Começou na normalização da migração forçada pela pobreza.

Não é apenas responsabilidade de um ente federativo. O governo federal tem o dever constitucional de coordenar políticas nacionais de desenvolvimento regional, reduzir desigualdades e fiscalizar condições de trabalho. O governo estadual, por sua vez, não pode se eximir do fracasso histórico na geração de oportunidades internas.

Quando um estado naturaliza a saída em massa de seus trabalhadores como destino inevitável, algo está profundamente errado.


As mães que ficam

O drama maior não está nas estatísticas. Está nas casas simples do interior maranhense, onde mães acompanham notícias pela televisão ou pelo celular, tentando descobrir se o nome do filho está na lista de mortos ou feridos.

Elas não querem discursos. Não querem peças publicitárias. Não querem inaugurações coreografadas. Querem trabalho perto de casa. Querem segurança. Querem seus filhos vivos.


Até quando?

O acidente da BR-153 não pode ser tratado como mais um episódio trágico do noticiário. Ele escancara um ciclo perverso: falta de emprego, migração forçada vulnerabilidade, exploração ou risco extremo, tragédia.

Enquanto não houver política econômica séria, estruturante e de longo prazo para geração de emprego no Maranhão, novas caravanas continuarão cruzando o país. E novas famílias continuarão esperando. Algumas, infelizmente, continuarão recebendo seus filhos de volta em silêncio — dentro de uma urna funerária.

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